São Jorge e Os Mundos da Proteção

Esta pesquisa investiga São Jorge como figura mítica, iconográfica e devocional de proteção. O interesse central não recai apenas sobre a circulação de uma imagem cristã de longa duração, mas sobre os modos pelos quais o santo guerreiro passou a proteger sujeitos e comunidades situados em zonas de vulnerabilidade, conflito ou excentricidade social: monges, soldados, pobres, trabalhadores, migrantes, devotos populares, grupos racializados e formas diversas de vida nas margens da ordem.

A investigação se organiza, em sua etapa inicial, em três campos principais. O primeiro é o Monte Athos, onde realizarei uma semana de pesquisa sobre a presença de São Jorge na tradição monástica ortodoxa, nos ícones, nos mosteiros, nas capelas e nas narrativas de proteção espiritual. Nesse universo, São Jorge aparece como mártir, guerreiro celeste e defensor contra forças ameaçadoras, inserido em uma paisagem religiosa marcada por longa duração bizantina, memória litúrgica e formas próprias de resistência espiritual.

O segundo campo é Estocolmo, onde já realizei pesquisa sobre a presença monumental de São Jorge. No contexto escandinavo, a imagem do santo adquire especial interesse por sua associação com uma sociedade que, no fim da Idade Média, vivia tensões de dependência, pobreza relativa e disputa política diante da poderosa coroa dinamarquesa. A figura do cavaleiro que vence o dragão pode ser lida, nesse cenário, como imagem de defesa coletiva, proteção dos vulneráveis e afirmação simbólica diante de poderes superiores.

O terceiro campo é o Rio de Janeiro, onde fotografei a festa de São Jorge e pretendo ampliar a pesquisa por meio de visitas a templos, festas e práticas rituais de Umbanda. No Rio, São Jorge ocupa uma posição singular: santo católico popular, figura de rua, imagem doméstica, protetor dos trabalhadores, dos pobres urbanos, dos devotos periféricos e de personagens ambíguos da cultura popular. Sua associação com Ogum abre um campo decisivo para compreender como o mito do santo guerreiro é ressignificado em tradições afro-brasileiras, sem reduzi-lo a uma equivalência simples entre santos e orixás.

Ao aproximar Monte Athos, Estocolmo e Rio de Janeiro, a pesquisa busca compreender como São Jorge opera em contextos muito distintos como imagem de proteção, combate e dignidade. O santo guerreiro permite observar os vínculos entre mito, iconografia, devoção popular e rebeldia. Nesse sentido, o estudo se conecta diretamente às minhas pesquisas sobre insurgências, rebeliões e culturas políticas periféricas, nas quais sujeitos subalternos constroem repertórios simbólicos para enfrentar a violência, a dependência, a precariedade e a dominação.

A pesquisa integra o projeto internacional Imagens em Trânsito: Iconografia Bizantina além das Fronteiras do Mundo Ortodoxo, desenvolvido no âmbito da cooperação entre a UERJ e a Universidade Aristóteles de Tessalônica. A partir de São Jorge e São Miguel, o projeto examina como imagens sagradas atravessam fronteiras e passam a articular, em novas paisagens históricas, proteção, honra, resistência, pertencimento e poder simbólico.

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