São Jorge e Os Mundos da Proteção


Esta pesquisa acompanha São Jorge por lugares muito diferentes entre si. Do Monte Athos ao Rio de Janeiro, passando por Estocolmo, a imagem do santo guerreiro atravessou séculos, fronteiras e tradições religiosas sem perder uma de suas características mais persistentes: a capacidade de ser convocada diante do perigo.
Interessa-me compreender como diferentes coletividades se apropriaram de uma mesma imagem para responder a problemas históricos muito distintos. O dragão não é sempre o mesmo. Tampouco são os perigos contra os quais São Jorge é chamado a combater. Em diferentes tempos e lugares, sua imagem esteve ao lado de monges, soldados, trabalhadores, pobres, migrantes e populações submetidas a formas diversas de violência, dependência ou insegurança.
A pesquisa se desenvolve inicialmente em três campos.
O primeiro é o Monte Athos, onde pretendo investigar a presença de São Jorge na tradição monástica ortodoxa, sobretudo nos ícones, mosteiros, capelas e narrativas ligadas à proteção espiritual. Nesse universo, Jorge é, antes de tudo, mártir e santo guerreiro. Sua imagem pertence a uma paisagem religiosa profundamente marcada pela tradição bizantina, pela vida litúrgica e pelo isolamento das comunidades monásticas. Interessa-me observar o que significa a presença de um guerreiro nesse mundo e contra que formas de ameaça sua proteção é mobilizada.
O segundo campo é Estocolmo, onde já realizei uma primeira pesquisa sobre a presença monumental de São Jorge. A célebre escultura de São Jorge e o Dragão, na Storkyrkan, foi produzida no final do século XV em um contexto de conflito político e militar entre a Suécia e a Dinamarca. Ali, a antiga narrativa cristã do santo que derrota o dragão se encontrou com uma história local de guerra, ameaça e afirmação política. A imagem podia ser reconhecida como cristã e, ao mesmo tempo, falar de perigos muito concretos.
O terceiro campo é o Rio de Janeiro. Aqui, São Jorge deixou há muito tempo os limites dos templos. Está nas ruas, nas casas, nos bares, nos táxis, nos ônibus, nas tatuagens e nos pequenos altares domésticos. No dia 23 de abril, sua presença transforma partes da cidade. Multidões atravessam o Rio para chegar às igrejas do Centro e de Quintino, enquanto fogos anunciam a chegada do dia ainda durante a madrugada.
É talvez no Rio que a pergunta que orienta esta pesquisa apareça de maneira mais evidente: o que pode uma imagem?
São Jorge chegou a uma cidade marcada pela escravidão e continuou presente entre populações pobres, trabalhadores e habitantes das periferias urbanas. Para aqueles que buscavam força e proteção diante de males que pareciam maiores do que eles, Jorge estava lá. Montado em seu cavalo branco, lança em punho, atravessou a cidade e subiu suas colinas, chegando às favelas e aos subúrbios.
Mas a imagem não pertence a um único mundo religioso. A proximidade entre São Jorge e Ogum tornou o santo parte de uma história muito mais complexa de circulação, tradução e reinterpretação de imagens no Brasil. Não se trata simplesmente de estabelecer uma equivalência entre um santo católico e um orixá. Interessa-me justamente perceber como diferentes tradições podem reconhecer, em uma mesma figura guerreira, forças e sentidos que não são necessariamente os mesmos.
Ao aproximar Monte Athos, Estocolmo e Rio de Janeiro, não procuro construir uma história linear da difusão de São Jorge. O que me interessa é acompanhar a capacidade de uma imagem antiga de entrar em novos mundos e responder a problemas que seus primeiros produtores jamais poderiam ter previsto.
A figura permanece extraordinariamente estável: o cavaleiro, o cavalo, a lança, o dragão. O mundo ao redor dela, porém, muda continuamente.
Talvez seja justamente essa tensão entre permanência e transformação que explique parte da força de São Jorge. Diferentes coletividades podem olhar para a mesma imagem e reconhecer nela perigos, inimigos e esperanças completamente distintos. O dragão muda. A necessidade de proteção permanece.
Esta pesquisa integra o projeto internacional Imagens em Trânsito: Iconografia Bizantina além das Fronteiras do Mundo Ortodoxo, desenvolvido no âmbito da cooperação entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Universidade Aristóteles de Tessalônica. A partir sobretudo das imagens de São Jorge e São Miguel, o projeto procura compreender o que acontece quando imagens produzidas em determinados universos históricos e religiosos atravessam fronteiras, chegam a outras sociedades e passam a participar de novas experiências de devoção, proteção e pertencimento.


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