“Os rouxinóis não te deixam dormir em Platres.”

Repetiu tantas vezes Seferis em seu célebre poema “Helena”.

Alexandre Belmonte

5/23/20252 min ler

Platres tornou-se uma daquelas estâncias de inverno em que se acreditava que a história estava suspensa. Durante a colonização britânica em Chipre, funcionou como uma hill station, um espaço deliberadamente despolitizado, idealizado para evasão da realidade, suspensão da história, afastamento da política.

Mas os rouxinóis são muitos, e não te deixam dormir. Nem mesmo em Platres. Sobretudo em Platres.

Platres deixa de ser um mero topônimo; passa a funcionar como um lugar em que tudo está em suspensão. Literalmente. Aldeia de montanha localizada a 1200 metros acima do nível do mar, consolidara-se como estação de repouso, com seus verões amenos e invernos com muita neve. Foi-se convertendo em espaço cada vez mais pensado para afastar-se de conflitos, condensando a fantasia moderna de que ainda seria possível delimitar zonas de “normalidade” ou “neutralidade”, lugares onde a historicidade das coisas rarefazia-se, e a história não exigiria resposta nem reação.

Mas… seria possível separar zonas de normalidade – onde se pode descansar, esquecer, viver como se a história não tivesse ocorrido – de zonas de violência e genocídio, confinadas ao passado ou a regiões específicas?

(Pausa. Me lembrei da Faixa de Gaza.)

Seferis escreve “Helena” num momento particularmente tenso dessa impossibilidade: durante sua missão diplomática no Chipre, coincidindo com a fundação da EOKA (1955) e o início das ações armadas pela união do Chipre com a Grécia.

O poeta recorre à tragédia de Eurípides para pensar a persistência da violência em nome de causas historicamente desacreditadas. Na versão de Eurípides, Helena jamais estivera em Troia, mas sim seu simulacro, feito a partir de nuvens pelos deuses. Só depois de guerrearem por dez anos é que Helena é vista com Menelau no Egito. “Jamais pisei a valente Troia”, ela diz. Páris deitara-se com uma sombra por dez anos, “como se fosse coisa real”.

O poema aponta para uma temporalidade trágica, em que a verdade sobre a inutilidade da guerra emerge apenas quando já não pode evitar o massacre nem reorganizar simbolicamente as milhares de perdas humanas.

Estou fazendo uma análise textual e contextual de “Helena” já há cinco meses, acompanhando a sequência do poema em sua ordem original, examinando como o refrão do rouxinol, a figura de Teucro, a cena do encontro com Helena no Proteu e a “camisa vazia” constroem, cada qual, um aspecto da crítica de Seferis à Guerra, mas, sobretudo, de sua denúncia do silêncio sobre Esmirna, sobre o genocídio dos pônticos e armênios por Atatürk, sobre a ocupação nazista da Grécia, a Grande Fome de Atenas, o mar Egeu florescendo de cadáveres… A Grécia aparece com muitas camadas de martírios e sacrifícios, e Seferis simplesmente nos faz pensar a experiência moderna dos genocídios e das guerras fundadas em “causas vazias” que, contudo, continuam a exigir sacrifícios mesmo depois de tornadas historicamente indefensáveis.

Movendo-se para o passado que Seferis viveu e projetando-se para o futuro que ele não chegou a ver, os rouxinóis de sua poesia não me deixam dormir no Rio de Janeiro em 2026. Há muitos martírios. Demasiados. Muitas guerras em nome de coisas tão vazias. Ideias feitas de nuvens. Simulacros da realidade.

Os rouxinóis hoje não te deixam dormir em Beirute, Teerã, Ashdod, Tel Aviv e Gaza.

Alexandre Belmonte